10 fevereiro 2010

Doze Fotos

O fotógrafo Jack Hollingsworth propõs hoje em seu blog um desafio para si e para todos nós: realizar, durante o ano de 2010, 12 fotos realmente memoráveis. Uma por mês. Em tradução livre feita por mim, aqui vai o recado dele:

Adoro essa frase do Ansel Adams - "doze fotografias significantes durante um ano é uma boa margem." Agora, garantidamente, Ansel era um fotógrafo de paisagens. Que fotografava em 4x5. Que aproximou-se de cada assunto com delicadeza e de forma metódica. Não como a maioria de nós, fotógrafos de câmera em punho, clicando freneticamente ao bel-prazer. Mas a questão é tão relevante e aplicável a nós do que quando ele proferiu essas palavras, anos atrás.

O digital, sem dúvidas, fez a fotografia mais acessível, disponível. Mas será que fez a fotografia mais relevante? Relevante significando notável, memorável, rara, incomum. Suas fotos são relevantes, nesse sentido? Você consegue editar um conjunto de doze fotografias tiradas em 2009 e dizer que todas são excepcionais e extraordinárias?

Nós todos (eu incluído) disparamos toneladas e toneladas de material. Mas não é o volume do nosso trabalho que vai deixar uma verdadeira marca - é o valor do nosso trabalho. E o significado para aqueles que são atingidos.

Veja, o significado que Ansel atribui não é simplesmente o significado que você atribui às suas fotografias - embora, claro, essa seja uma parte importante da equação. Mas é a importância que outros atribuem e atribuem a suas fotos que as torna realmente dignas de atenção, cruciais, de peso.

Fotografias significativas transcendem o sentimento pessoal. Além disso, elas têm que ser tecnicamente boas. De composição agradável. Conteúdo cheio de emoção, significado. Visualmente interessantes e agradáveis.

Tenho olhado para meu próprio trabalho com um olhar crítico, ultimamente. Há provavelmente 100 ou mais fotos, no meu material, que eu orgulhosamente colocaria na categoria "significativas". Nada mau. Mas ainda há muito mais a fazer.

Henri Cartier Bresson disse melhor do que ninguém: "Suas primeiras 10.000 fotografias serão as suas piores." Ele estava certo. E não estava falando de 10.000 cliques (o que você poderia possivelmente fazer em um final de semana). Ele estava falando de 10.000 fotografias editadas.

Talvez todos nós precisássemos reduzir o volume de material. E focar acima, no valor. Pense significado, não quantidade. PEnse em significância, não escala e tamanho.

Esta é a minha meta para 2010. Conseguir uma foto matadora, com significado, por mês. Para adicionar ao meu portfolio. Para conduzir com elas minhas campanhas de marketing. E mais importante, para deixar um legado que tenha significado.

Lhes prometo isso - a maior parte do que você clica durante sua carreira, mesmo o que sai bom, não será lembrado pela história. Mas a história lembrará de seus cliques que tem significado. Aqueles que você construiu... um clique de cada vez, uma vez por mês.

Doze fotos. Um por mês. É tudo que você precisa pra ser lembrado. Para ser significante. Alguém se atreve a se juntar a mim? Seja parte do grupo "TWELVE" (DOZE) Escreva para atjack@jackhollingsworth.com se estiver interessado.


Para ler o original em inglês, acesse o blog oficial do Jack clicando aqui.

29 julho 2009


Hoje eu quis te comprar flores. Mas não naquela floricultura ali atrás do mercado, há duas quadras do teu apartamento. Aquela sempre está fechada. Tem um sex shop em anexo, sempre fechado também. Deve ter falido. Então eu andaria mais umas 5 quadras até aquela outra, menorzinha, que fica na mesma rua do teu antigo emprego, sabe? Já comprei ali uma vez e mandei entregar durante teu expediente, com um cartão.

Ignorando o fato de que ainda que eu comprasse flores hoje elas murchariam antes que nos víssemos de novo, outras coisas me levaram a não comprá-las. Imaginei as flores ali, no pequeno espaço físico entre as toalhas molhadas e o copo de plástico vermelho com cinzas de cigarro e dois dedos d'água. Ou no espaço da tua memória entre a última caixa de bomboms e o caderno onde te escrevi uma carta por dia durante o mês que você passou fora. Esse espaço ainda menor, sem importância. Imaginei que essas flores teriam o mesmo impacto de quaisquer outros inúmeros agrados, mimos e surpresas nos quais dediquei tempo e dinheiro tantas vezes: nenhum. Porque "eu faço demais" e isso tira a validade dos feitos, segundo ouvi de ti.

Elas provavelmente morreriam de sede e desgosto. Por falta de água e admiração, porque eu imagino que as flores tenham disso. Precisam ser admiradas pra sobreviver. Ainda mais essas, frágeis orquídeas, tão femininas, delicadas e carentes de cuidados. E que tão pouco tem a ver contigo, sempre tão forte e independente.

Hoje eu quis te comprar flores. E quis entregá-las pessoalmente, com um cartão e lágrimas nos olhos por estar de novo em tua presença. E quis que isso te tocasse, mesmo sabendo que muito mais nunca te tocou. Mas eu quis te comprar flores. E num breve momento de razão em meio a esse devaneio todo que criei pra nós dois, esse reencontro utópico, resolvi que não devia. Então fiz essa foto. São minhas flores pra você. Sem a textura no tato, o odor no olfato, sem as lágrimas no paladar, escorrendo na face e tocando a boca entreaberta. Flores assim, sem textura, cheiro ou sabor. Como acho que nos cabe. Como o que nos resta.

30 junho 2009

A Maldição / Ainda estou vivo

Hoje de madrugada, enquanto eu voltava do bar onde tinha acabado de me encontrar com alguns dos meus melhores amigos para uma cerveja, essa história me veio à cabeça. Sim, é segunda-feira e eu não devia estar bebendo de madrugada, mas na minha atual condição, é preciso celebrar quando a ocasião se apresenta.

Algum tempo atrás eu baixei o programa VH1 Storytellers do Pearl Jam. Basicamente, a banda faz um show e conta algumas histórias entre as músicas. Esses vídeos foram pra backup e nunca mais tinha assistido, mas me lembrei de ALIVE enquanto dirigia pra casa pelas ruas vazias (lembrem-se: é segunda-feira e são 02:30am) porque sim, ainda estou vivo. E essa história é fantástica, então resolvi compartilhar com vocês poucos que lêem o que tenho a dizer.

A história da música Alive (Vivo) é chamada por Eddie Vedder de "A Maldição". Num misto de tradução do vídeo com minhas próprias palavras, eis o porquê: Alive é uma canção que eles vem tocando há muito tempo através dos anos. Foi a primeira música que eles compuseram juntos e ela se transformou durante esse tempo todo em que eles são uma banda. Não tanto no arranjo ou na forma com que eles tocam, mas na interpretação e sentido da letra.

A história original da canção é sobre um jovem sendo confrontado com algumas verdades chocantes: a primeira é que o homem que ele cresceu acreditando ser seu verdadeiro pai, não o é. A segunda é que seu verdadeiro pai morreu há alguns anos. Quando a mãe desse rapaz lhe conta isso, seu desenvolvimento é brutalmente afetado e ele fica sem norte, perdido. Eddie diz saber tudo isso porque conhecia o rapaz. "Não muito bem", ele brinca. "Esse garoto era eu, mas eu mal me conhecia na época." A interpretação original, então, era de um garoto que ficou sabendo dessas terríveis notícias sobre sua vida e tinha que, de alguma maneira, perdoar a mãe e aprender a lidar e viver com isso. Estar vivo depois de tudo isso era como uma maldição.

Com o tempo, a banda começou a tocar para platéias cada vez maiores. As pessoas começaram a interagir com esse refrão de uma maneira que Eddie jamais havia imaginado ser possível. Pulando, se divertindo, se expressando: "ainda estou vivo" (I'm still alive). Cada vez que ele via as pessoas reagindo de forma positiva a esse refrão, era incrível! O público estava mudando o sentido dessas palavras. Quando eles cantavam, estavam celebrando. Nas palavras de Eddie: "Eis, então, o que houve: quando o público mudou o sentido daquelas palavras, eles removeram a maldição."

http://www.youtube.com/watch?v=JDOagxVsN0c

A incorporação está desativada, cliquem no link pra ver o vídeo no YouTube.