Um comentário que fiz agora há pouco no Twitter gerou uma série de replys e RT que há muito eu não via na minha conta. Foi o seguinte:
Alô você que fuma seu baseadinho numa relax, numa tranquila, numa boa: ligue a TV e lembre-se, isso tudo é culpa sua também. #RJ
A grande maioria das respostas foram RTs de pessoas que, imagino, concordam. Alguns replys mais exaltados e um ou dois xingamentos de maconheiros que não tem argumentos pra discutir e já começaram perdendo a razão. De qualquer forma, não é uma questão simples e, em nome da fluidez da escrita, vou omitir as palavras "eu acho" da frente de cada opinião que escrever. Imaginem que elas estão ali.
Em primeiro lugar, concordo e defendo que cada pessoa tenha a soberania sobre seu corpo e faça dele o que bem entender. Isso se aplica ao álcool, às drogas, ao aborto, à modificação corporal e quaisquer outras coisas. Respeitando aquela regrinha básica que aprendemos na escola, seu direito acaba onde começa o direito do outro. É simples assim.
Acontece que entre o seu direito de fumar um baseado depois do show, tomar umas cachaças durante e dar um teco antes, há uma série de outras pessoas com direitos, convivendo num mesmo ambiente.
Entre essas 3 atividades, a única lícita stalvez eja a mais mortal, mas essa não é a discussão aqui. A indústria do álcool tira centenas de milhares de vidas, todos os anos. Mais pessoas morrem em acidentes de carro causados por embriaguez do que gente morre de overdose, óbvio. Em contrapartida, o álcool gera empregos formais, paga impostos (muitos!) e enfim, faz a economia girar. Até você tomar sua cerveja gelada no final de semana, milhões de reais foram gastos em pesquisa de mercado, por exemplo. Muitas agências de design / propaganda enriqueceram às custas dessa indústria. Motoristas de caminhão, donos de supermercado, repositores, pequenos proprietários de bar, faxineiras... o ciclo de empregos e consequente renda criados pela indústria da bebida alcóolica é imenso. Legalizar as drogas seria, então, uma solução viável? Seria "a mesma coisa"? Por que não fazer assim com a maconha, cocaína e outras drogas? Calma lá...
Segundo, o problema do tráfico no Rio de Janeiro e em todo o Brasil é real. Não é hipotético. Não é questão de "e se". O problema existe e é esse! Não adianta dizer que "se não fosse o tráfico, seria outra coisa", entende? É o tráfico! É também, talvez em menor escala, todo tipo de atividade ilegal, como a venda de DVDs piratas, como alguém citou ironicamente no twitter. É um problema social complexo para o qual eu não acho que tenha uma solução simples a curto prazo.
Voltando um pouco: já concordei que você tem o direito de fazer com seu corpo o que bem entender. Consumir a substância que quiser. Acontece que existem leis. Existem coisas permitidas e existem coisas proibidas. Isso é viver em sociedade. Isso é respeitar o direito dos outros. O seu baseadinho traz consequências que vão além de você ficar chapado, além da sua larica. Existe todo um intrincado esquema de produção / distribuição / venda por trás disso, e esse esquema é todo ilegal. Por mais que sonhe com isso, você não mora em Amsterdan. Mais uma vez, a realidade é essa aqui, não é aquela. Não é "e se". O Rio de Janeiro está em guerra pra defender o seu "direito" de fumar um baseado SIM. Existem outros motivos? Existem, claro! Os chefes das facções criminosas querem impedir que a polícia se instale nos morros, que criem novas unidades avançadas lá dentro. Mas por quê? Pra não perderem o controle das bocas. DVD pirata não gera renda suficiente pro troco do pão dessa galera. O grosso vem obviamente do tráfico de drogas e armamento. Mas o armamento é pra defender as bocas. Percebem o ciclo?
"Vamos legalizar a maconha, assim o tráfico acaba!", dizem alguns. Mentira.
Com a palavra, Ronaldo Laranjeira, médico psiquiatra, PhD em Dependência Química na Inglaterra. coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Faculdade de Medicina da UNIFESP (Universidade Federal do Estado de São Paulo), para a revista Galileu:
Como eu disse, não é uma questão simples. Acontece que, da maneira como eu vejo as coisas (e os comentários do blog estão aí pra você deixar sua opinião contrário, se quiser), o seu baseadinho recreativo tem ligação direta com essa violência que estamos vendo no Rio de Janeiro. E com a sua violência local, também. O nóia que te assalta no farol, o bandido que levou a bolsa da sua mãe no ônibus, na esquina da sua casa... é o ciclo da atividade ilícita.
Repetindo, eu não sou contra o seu direito de fazer o que bem entender com seu organismo. É difícil encarar a vida de cara limpa, eu sei. Todo mundo precisa de uma muleta, ou um momento pra relaxar. Alguns fumam um baseado, outros tomam um copo de whisky, outros, sei lá, se esfregam em árvores. Acontece que, inegavelmente, se a tua recreação vem de uma atividade criminosa, ilegal, há consequências que superam o teu alcance. Se está tudo bem pra você conviver com isso, ótimo. Vai de cada um saber o seu papel no jogo.
Lembrando, isso tudo é um monte de "eu acho". Quem quiser comentar e manter a discussão num nível interessante para todos, terá suas impressões e ideias publicadas.