25 Novembro 2010

Rio de Janeiro em guerra, tráfico e maconheiros.

Um comentário que fiz agora há pouco no Twitter gerou uma série de replys e RT que há muito eu não via na minha conta. Foi o seguinte:


Alô você que fuma seu baseadinho numa relax, numa tranquila, numa boa: ligue a TV e lembre-se, isso tudo é culpa sua também. #RJ


A grande maioria das respostas foram RTs de pessoas que, imagino, concordam. Alguns replys mais exaltados e um ou dois xingamentos de maconheiros que não tem argumentos pra discutir e já começaram perdendo a razão. De qualquer forma, não é uma questão simples e, em nome da fluidez da escrita, vou omitir as palavras "eu acho" da frente de cada opinião que escrever. Imaginem que elas estão ali.


Em primeiro lugar, concordo e defendo que cada pessoa tenha a soberania sobre seu corpo e faça dele o que bem entender. Isso se aplica ao álcool, às drogas, ao aborto, à modificação corporal e quaisquer outras coisas. Respeitando aquela regrinha básica que aprendemos na escola, seu direito acaba onde começa o direito do outro. É simples assim.


Acontece que entre o seu direito de fumar um baseado depois do show, tomar umas cachaças durante e dar um teco antes, há uma série de outras pessoas com direitos, convivendo num mesmo ambiente.


Entre essas 3 atividades, a única lícita stalvez eja a mais mortal, mas essa não é a discussão aqui. A indústria do álcool tira centenas de milhares de vidas, todos os anos. Mais pessoas morrem em acidentes de carro causados por embriaguez do que gente morre de overdose, óbvio. Em contrapartida, o álcool gera empregos formais, paga impostos (muitos!) e enfim, faz a economia girar. Até você tomar sua cerveja gelada no final de semana, milhões de reais foram gastos em pesquisa de mercado, por exemplo. Muitas agências de design / propaganda enriqueceram às custas dessa indústria. Motoristas de caminhão, donos de supermercado, repositores, pequenos proprietários de bar, faxineiras... o ciclo de empregos e consequente renda criados pela indústria da bebida alcóolica é imenso. Legalizar as drogas seria, então, uma solução viável? Seria "a mesma coisa"? Por que não fazer assim com a maconha, cocaína e outras drogas? Calma lá...


Segundo, o problema do tráfico no Rio de Janeiro e em todo o Brasil é real. Não é hipotético. Não é questão de "e se". O problema existe e é esse! Não adianta dizer que "se não fosse o tráfico, seria outra coisa", entende? É o tráfico! É também, talvez em menor escala, todo tipo de atividade ilegal, como a venda de DVDs piratas, como alguém citou ironicamente no twitter. É um problema social complexo para o qual eu não acho que tenha uma solução simples a curto prazo.


Voltando um pouco: já concordei que você tem o direito de fazer com seu corpo o que bem entender. Consumir a substância que quiser. Acontece que existem leis. Existem coisas permitidas e existem coisas proibidas. Isso é viver em sociedade. Isso é respeitar o direito dos outros. O seu baseadinho traz consequências que vão além de você ficar chapado, além da sua larica. Existe todo um intrincado esquema de produção / distribuição / venda por trás disso, e esse esquema é todo ilegal. Por mais que sonhe com isso, você não mora em Amsterdan. Mais uma vez, a realidade é essa aqui, não é aquela. Não é "e se". O Rio de Janeiro está em guerra pra defender o seu "direito" de fumar um baseado SIM. Existem outros motivos? Existem, claro! Os chefes das facções criminosas querem impedir que a polícia se instale nos morros, que criem novas unidades avançadas lá dentro. Mas por quê? Pra não perderem o controle das bocas. DVD pirata não gera renda suficiente pro troco do pão dessa galera. O grosso vem obviamente do tráfico de drogas e armamento. Mas o armamento é pra defender as bocas. Percebem o ciclo?


"Vamos legalizar a maconha, assim o tráfico acaba!", dizem alguns. Mentira.


Com a palavra, Ronaldo Laranjeira, médico psiquiatra, PhD em Dependência Química na Inglaterra. coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Faculdade de Medicina da UNIFESP (Universidade Federal do Estado de São Paulo), para a revista Galileu:


Por que você é contra a legalização?
Sou contra qualquer mudança de política em relação à maconha que possa aumentar o consumo. No Brasil, de 2% a 3% da população fuma regularmente maconha. Em alguns países europeus, nos Estados Unidos e Austrália, a média é de 20%. Mas, ao contrário deles, nós não temos uma rede de proteção para as pessoas que desenvolvem transtornos mentais ou problemas sociais por causa da droga. É errado simplesmente discutirmos modelos que funcionam em outras nações, outras culturas. Eles podem servir de inspiração, mas nós precisamos estudar um pouco mais o impacto da nossa lei e, a partir daí, fazermos experiências em algumas cidades ou estados para ver qual seria o melhor modelo para o Brasil.


O problema seria de saúde pública?
A legalização aumentaria o consumo e facilitaria o acesso à maconha. Se fosse permitido que todo mundo plantasse maconha em casa, não só as pessoas que consomem plantariam. Os grandes traficantes também, para fornecer a droga. O afrouxamento dos controles sociais em relação à maconha seria exatamente o oposto do que tem sido feito com o tabaco e o álcool, e não resolveria o problema. Estamos frente a um contrassenso. Para mim, o argumento de que as pessoas têm o direito sobre o próprio corpo é muito mais sério do que falar que a legalização da maconha não vai ter consequências sociais e de saúde pública.

O tráfico não diminuiria?
Essa é uma grande ilusão, porque o tráfico é mais sofisticado do que pensamos. Para competir com ele, seria preciso ter uma maconha mais barata e concentrada. Porque se você vender um cigarro de maconha por R$ 5, o tráfico estará vendendo a R$ 1. Com a legalização, a oferta de maconha vai aumentar, além de o tráfico continuar a vender ilegalmente. E se colocarmos no mercado uma maconha mais pura e forte, do ponto de vista de saúde pública, seria uma temeridade. Não há uma solução simples, não basta apenas legalizarmos a maconha. Essa justificativa de combate ao tráfico é uma ilusão quase que pueril.


Como eu disse, não é uma questão simples. Acontece que, da maneira como eu vejo as coisas (e os comentários do blog estão aí pra você deixar sua opinião contrário, se quiser), o seu baseadinho recreativo tem ligação direta com essa violência que estamos vendo no Rio de Janeiro. E com a sua violência local, também. O nóia que te assalta no farol, o bandido que levou a bolsa da sua mãe no ônibus, na esquina da sua casa... é o ciclo da atividade ilícita.


Repetindo, eu não sou contra o seu direito de fazer o que bem entender com seu organismo. É difícil encarar a vida de cara limpa, eu sei. Todo mundo precisa de uma muleta, ou um momento pra relaxar. Alguns fumam um baseado, outros tomam um copo de whisky, outros, sei lá, se esfregam em árvores. Acontece que, inegavelmente, se a tua recreação vem de uma atividade criminosa, ilegal, há consequências que superam o teu alcance. Se está tudo bem pra você conviver com isso, ótimo. Vai de cada um saber o seu papel no jogo.


Lembrando, isso tudo é um monte de "eu acho". Quem quiser comentar e manter a discussão num nível interessante para todos, terá suas impressões e ideias publicadas.

15 Setembro 2010

Combo (Me)³nsal atrasado!

Claro que eu deixo tudo inacabado, sempre foi assim. Burlando as regras do #MEME e aproveitando que ninguém está nem aí mesmo, vou fazer um post que vale por cinco.

Dia 19 – Um talento seu
Me foder. Mentira.

Um talento que descobri cedo foi a música. Antes mesmo de entrar nas aulas de piano do colégio eu já tocava em casa, de ouvido, aprendendo ao observar meu pai tocar. Hoje não toco mais, então o talento que ando utilizando por aí talvez seja o da fotografia. Comecei com as antigas câmeras de filme, fiz os primeiros cursos com ela e a entrada no digital foi um passo natural pra mim. Hoje consigo aliar esse talento / hobby à minha profissão, fotógrafo, e isso é algo que me orgulha. Os links pro meu trabalho, caso alguém ainda não conheça, estão aí ao lado.

Dia 20 – Um hobby
A fotografia deixou de ser meu principal hobby porque é minha profissão. Fazer música anda muito pouco frequente para ser caracterizada um hobby. Acho que hoje em dia meu hobby é mesmo a internet. Baixar músicas, navegar por sites de assuntos diversos, descobrir coisas... vivo por aí, nas horas vagas.

Dia 21 – Uma receita
Retire a comida pronta do freezer, insira no microondas seguindo as instruções do rótulo e pronto.

Dia 22 – Um site
O princípio, o meio e o fim.
Alfa e ômega: http://www.google.com

Dia 23 – Um vídeo do YouTube

02 Setembro 2010

(Me)³nsal - Dia 18. Um poema

E. E. Cummings - Somewhere I have never travelled, gladly beyond

Somewhere I have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

Your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

Or if your wish be to close me, I and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

Nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(I do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands
Esse é o poema do Cummings que o Zeca Baleiro traduziu e musicou, com o nome de "Nalgum lugar". Para ler a tradução é só ouvir a música. Postei em inglês porque acho que poemas perdem muito na tradução, mesmo quando ela é bem feita. Algumas nuances se perdem fora das características e peculiaridades do idioma original.